Tuesday, August 9, 2016

Ìjọba Olóri-Ogun àkọ́kọ́ Aguiyi-Ironsi, ou o Governo do General Aguiyi-Ironsi


 
O dia 29 de julho na Nigéria, o pais com maior população negra do mundo (o Brasil tem a segunda) é quase tão importante quanto o dia 1º de outubro quando em 1960, esse pais Oeste Africano obteve sua independência da Grã-Bretanha. Mas a importância e relevância de 29 de Julho para a sua história política, negativa ou positivamente, continua a ser indiscutivelmente óbvio O drama do dia 29 de julho há 49 anos, desencadeou uma série de eventos que levaram a algumas mudanças fundamentais na história do país. Foi o dia em que o primeiro chefe de Estado militar, o major-general Johnson Thomas Umunakwe Aguiyi-Ironsi, foi derrubado e que acabou por ser o mais sangrento golpe militar na Nigéria. Ironicamente, nove anos depois, quando o beneficiário do golpe de 29 de julho de 1966, o general Yakubu Gowon, foi afastado do cargo, o fato ocorreu sem derramamento de sangue.

Um blog muito interessante de título “The Yoruba blog” ou em Português “ O blog Iorubá”, publicou um artigo o qual transcrevemos abaixo e traduzimos, fazendo algumas observações, que julgamos didáticas, sobre a tradução.

 Começando pelo título do artigo Ìránti Aadọta Ọdún ti Ọ̀gágun Adékúnlé Fájuyi fi ara rẹ ji fún Àlejò rẹ, Olóri-Ogun àkọ́kọ́ Aguiyi Ironsi”, em Português poderia ser:  Celebração dos cinquenta anos da lealdade do Coronel Adekunle aos estrangeiros, sob o comando do General Aguiyi Ironsi

O texto em Ioruba segue assim:

“Yorùbá fẹ́ràn àlejò púpọ̀.  Ìwà ti ọmọ ilú lè hù ti yio fa ibinú, bi àlejò bá hu irú ìwà bẹ́ ẹ̀, wọn yio ni àlejò ni, ki wọn fori ji i.  Òwe Yorùbá ti ó sọ wi pé “Ojú àlejò ni a ti njẹ igbèsè, ẹhin rẹ la nsaán”.  Eyi fi hàn bi Yorùbá ti fẹ́ràn lati ma ṣe àlejò tó.

Ìbàdàn ni olú-ilú ipinlẹ̀ Yorùbá ni Ìwọ̀-Oorun Nigeria tẹ́lẹ̀ ki Ìjọba Ológun ti Aguiyi Ironsi ti jẹ Olóri tó kó gbogbo ipinlẹ̀ Nigeria pọ si aarin lẹhin ti wọn fi ibọn gba Ìjọba lọ́wọ́ Òṣèlú ni aadọta ọdún sẹhin. Lẹhin oṣù keje ni aadọta ọdún sẹhin, àwọn Ológun fi ibọn gba Ìjọba ni igbà keji.  Ti àkọ́kọ́ ṣẹlẹ̀ nigbati wọn fi ibọn lé àwọn Òṣèlú àkọ́kọ́ lẹhin òmìnira kúrò ni ọjọ́ karùndinlógún, oṣù kini ọdún Ẹdẹgbaalemẹrindinlaadọrin.  Lẹhin oṣù meje, àwọn Ológun tún fi ibọn gbà Ìjọba lọ́wọ́ àwọn Ológun ti wọn fi ibọn gbé wọlé ti Aguiyi Ironsi jẹ olóri rẹ.  Lára Ìjọba Ológun àkọ́kọ ti Ọ̀gágun Aguiyi Ironsi ti jẹ́ Olóri Ìjọba ni wọn ti fi Ọ̀gágun Adékúnlé Fájuyi jẹ Olóri ni ipinlẹ̀ Yorùbá dipò Òṣèlú Ládòkè Akintọ́lá ti àwọn Ológun pa”.

Acho didático dividir a tradução em partes para melhor compreensão da postura do povo Ioruba, com relação a estrutura de comunicação das ideias da ordenação gramatical dos elementos de linguagem assim como também da sintaxe: O primeiro parágrafo é relativamente simples (para quem está no nível intermediário) . Então, vamos direto para o segundo parágrafo:
 
Ìbàdàn ni olú-ilú ipinlẹ̀ Yorùbá ni Ìwọ̀-Oorun Nigeria tẹ́lẹ̀ ki Ìjọba Ológun ti Aguiyi Ironsi ti jẹ Olóri tó kó gbogbo ipinlẹ̀ Nigeria pọ si aarin lẹhin ti wọn fi ibọn gba Ìjọba lọ́wọ́ Òṣèlú ni aadọta ọdún sẹhin. Lẹhin oṣù keje ni aadọta ọdún sẹhin, àwọn Ológun fi ibọn gba Ìjọba ni igbà keji.  Ti àkọ́kọ́ ṣẹlẹ̀ nigbati wọn fi ibọn lé àwọn Òṣèlú àkọ́kọ́ lẹhin òmìnira kúrò ni ọjọ́ karùndinlógún, oṣù kini ọdún Ẹdẹgbaalemẹrindinlaadọrin.  Lẹhin oṣù meje, àwọn Ológun tún fi ibọn gbà Ìjọba lọ́wọ́ àwọn Ológun ti wọn fi ibọn gbé wọlé ti Aguiyi Ironsi jẹ olóri rẹ.  Lára Ìjọba Ológun àkọ́kọ ti Ọ̀gágun Aguiyi Ironsi ti jẹ́ Olóri Ìjọba ni wọn ti fi Ọ̀gágun Adékúnlé Fájuyi jẹ Olóri ni ipinlẹ̀ Yorùbá dipò Òṣèlú Ládòkè Akintọ́lá ti àwọn Ológun pa.
Vamos dividir em partes o segundo parágrafo, repetidno as partes em Iorubá para uma melhor análise:
i)             Ìbàdàn ni olú-ilú ipinlẹ̀ Yorùbá ni Ìwọ̀-Oorun Nigeria tẹ́lẹ̀ ki Ìjọba Ológun ti Aguiyi Ironsi ti jẹ Olóri tó kó gbogbo ipinlẹ̀ Nigeria pọ si aarin lẹhin ti wọn fi ibọn gba Ìjọba lọ́wọ́ Òṣèlú ni aadọta ọdún sẹhin.
 Ìbàdàn ni olú-ilú ipinlẹ̀ Yorùbá ni Ìwọ̀-Oorun Nigeria “Ibadan é (era) a capital do estado Ioruba do oeste da Nigéria (tẹ́lẹ̀ ki = antes) até a incursão militar (‘Ìjọba Ológun’ ) literalmente ‘reino militar’ liderada por Aguiyi Ironsi, que foi o Chefe (Olóri) que consolidou (‘tó kó gbogbo’ (transmite a ideia de imperativo, coercitivo” ipinlẹ̀ Nigeria (Estado da Nigéria) pọ si aarin (forçar ao centro) lẹhin ti wọn fi ibọn gba Ìjọba (pelas armas tomar o poder) (depois de ter tomado o governo mediante golpe militar) lọ́wọ́ Òṣèlú (das mãos dos políticos, quer dizer, do governo democraticamente eleito) ni aadọta ọdún sẹhin (há cinquenta anos atrás).
 Vamos dividir mais uma vez a segunda parte desse texto:
ii)            Lẹhin oṣù keje ni aadọta ọdún sẹhin, (depois de sete meses a cinquenta anos atrás) àwọn Ológun fi ibọn gba Ìjọba ni igbà keji (os militares deram um segundo golpe (contra-golpe)).   

iii)           Ti àkọ́kọ́ ṣẹlẹ̀ nigbati wọn fi ibọn lé àwọn Òṣèlú àkọ́kọ́ lẹhin òmìnira (Nesse tempo, quando do golpe militar que derrubou o primeiro governo democrático, depois da independência) kúrò ni ọjọ́ karùndinlógún, oṣù kini ọdún Ẹdẹgbaalemẹrindinlaadọrin (aconteceu no dia quinze de janeiro [(ọjọ́ karùndinlógún = dia 15), oṣù kini ọdún = janeiro mil e novecentos (Ẹdẹgbaale) e sessenta e seis (mẹrindinlaadọrin = 70 – 4 = 66).

iv)           Lẹhin oṣù meje, àwọn Ológun tún fi ibọn gbà Ìjọba lọ́wọ́ àwọn Ológun ti wọn fi ibọn gbé wọlé ti Aguiyi Ironsi jẹ olóri rẹ.

v)            Lára Ìjọba Ológun àkọ́kọ ti Ọ̀gágun Aguiyi Ironsi ti jẹ́ Olóri Ìjọba ni wọn ti fi Ọ̀gágun Adékúnlé Fájuyi jẹ Olóri ni ipinlẹ̀ Yorùbá dipò Òṣèlú Ládòkè Akintọ́lá ti àwọn Ológun pa.
 
 Deixamos as duas partes acima como exercício. Na semana que vem, estaremos analisando o texto: “Ìgbésí Ayé Aláwọ̀-dúdú Ṣe pàtàki” pé Àwọ Lè Yàtọ̀, Ṣùgbọ́n Ẹ̀jẹ̀ Kò Yàtọ̀ – “ A vida do negro é importante, a cor da pele pode ser diferente, mas o sangue é o mesmo”.

Referencias:

2.    Johnson Aguiyi-Iornsi: https://en.wikipedia.org/wiki/Johnson_Aguiyi-Ironsi (acessado em: 09/08/16)

Tuesday, July 19, 2016

Curso Presencial de Introdução a Língua e Cultura Ioruba-Nagô na Estácio – FIB 2016.2


Èṣù j òrìà kan pàtàkì ti a ńsin jákèjádò ilẹ̀ Yorùbá. Èṣù ni o lagbara jú nínú gbógbó iránṣ Ọlọ́run.

Tradução: Exú é um Orixá importante e adorado em toda a terra Iorubá. Ele ´o mais poderoso entre todos os servidores de Deus.

“Os primeiros europeus que tiveram contato na África com o culto do orixá Exu dos iorubá, venerado pelos fòn como o Vodun Legba ou Elegbara, atribuíram a essa divindade uma dupla identidade: a do deus fálico greco-romano Príapo e a do diabo dos judeus e cristãos. A primeira por causa dos altares, representações materiais e símbolos fálicos do orixá-vodun; a segunda em razão de suas atribuições específicas no panteão dos orixás e voduns e suas qualificações morais narradas pela mitologia, que o mostra como um orixá que contraria as regras mais gerais de conduta aceitas socialmente, conquanto não sejam conhecidos mitos de Exú que o identifiquem com o diabo (PRANDI, 2001, pp. 38-83) ”.

 

A Identidade é uma categoria efetivamente importante para compreendermos como o indivíduo se constitui, influenciando sua autoestima e sua maneira de existir. Neste sentido, é fundamental, para a compreensão da problemática do Afrodescendente, o conhecimento das formas pelas quais ele desenvolve sua identidade, principalmente em contextos sociais adversos, onde é discriminado.

Aproximadamente três milhões e meio de negros Africanos foram trazidos através do tráfico para serem escravizados no Brasil. Com a escravidão, as famílias e clãs dos povos africanos eram separados arbitrariamente. No Brasil, a religião católica lhes era imposta pelos senhores. É errôneo o conceito que prega ser a cultura africana-brasileira, uma “sobrevivência” que se mostrou mais efetiva nos centros urbanos e nas grandes fazendas de açúcar.

O presente curso, aberto a todas as pessoas interessadas na Cultura Geral Afro-brasileira, independente de raça, cor, credo, orientação sexual, opção política, etc., vem mostrar que, ao contrário do que se divulga, a cultura africana-brasileira é resultado de um diálogo permanente. Nesses locais havia maior concentração de escravos que se reuniam com seus povos de origem, dando continuidade a seus rituais e cultos de forma velada. A cultura foi mantida viva também pelo constante número de escravos que chegavam ao Brasil, trazendo a força das raízes ancestrais e tradições africanas. E a contribuição dos

“Retornados” (homens e mulheres que voltaram para a África, depois de abolida a escravidão) para o quadro cultural dos dois lados do Atlântico, é fundamental para a sobrevivência dessa cultura. Nesse sentido o candomblé se constituiu exemplo lapidar de organização de esforço.

Nesse contexto, a transversalidade nas políticas culturais se mostra importante. No caso dos terreiros de candomblé e das comunidades remanescentes de quilombos, por exemplo, a continuidade e a preservação de sua cultura são inseparáveis do seu território. Contudo é importante que se dê nota ao caráter de resistência desempenhado pelo Candomblé enquanto agremiação política de concentração de poder cultural papel esse “invisibilizado” pela postura eurocêntrica das elites brasileiras, que costumam restringir o Candomblé a condição de “prática religiosa pagã”, como parte do esforço permanente pela “demonização” das matrizes africanas. Entretanto é justamente o Candomblé que vai posicionar o conhecimento da Língua e da Cultura Ioruba- Nagô como suporte estratégico na luta pelo resgate da cidadania afrodescendente. É o conhecimento da Língua e da Cultura Iorubá que vai cimentar a identidade cultural diferenciada. É do Candomblé que surge a associação da Bahia com a prática Orixá e o diferencial positivo que essa associação traz em termos de dividendos turístico, políticos e culturais para essa terra, em troca do desprezo e da discriminação dos seus legítimos herdeiros em nome da manutenção de um status quo que coloca o Brasil como uma nação europeia distante da sua população afrodescendente, negando assim parte importante da sua herança de sangue e de cultura.

 

Curso de Introdução a Língua e Cultura Ioruba-Nagô

Modalidade: Presencial

Local: Centro Universitário da Bahia – Estácio FIB – Campus Gilberto Gil

            Rua R. Xingu, 179 - Jardim Atalaia, Salvador - BA, 41770-130

Inicio: 3 de agosto de 2016

Termino: 19 de outubro de 2016 [ao todo serão dez (10) encontros]

Horário: Das 18:00 as 20:00.


(Abrir sempre utilizando o navegador Internet Explorer).

Contatos: Profa. Thais Gualberto

Professor Adelson (98644-7753)

 

 

Tuesday, February 24, 2015

Ẽpa he, Ọya, Iyá mẹsan ọ̀run!


O título é, literalmente, a saudação mais conhecida dirigida ao Orixá Iansã.
Na nossa Bahia, denominada mui sabiamente de “A Roma Negra” em pronúncia feliz realizada pela Saudosa Mãe Aninha ou Ọba Biyi, do Axé Opo Afonjá, Iansã é muito cultuada dentro e fora dos nossos Templos de Matriz Africana. Na Mitologia Yoruba o nome Ọya (que nós pronuciamos ´Oyá´) provém do rio de mesmo nome na Nigéria, onde seu culto é realizado, atualmente chamado de rio Níger. Na Nigéria, Ọya é uma divindade das águas como Ọ̀ṣun e Yemọja, mas também é relacionada ao elemento ar, sendo uma das divindades que ao lado de Ayrá e Orìṣà Afẹ̃fẹ controla os ventos. Costuma ser reverenciada antes de Ṣàngó (Xangô) como o vento personificado que precede a tempestade. Assim como a Orixá Obá, Oyá também está relacionada ao culto dos mortos, onde recebeu de Xangô a incumbência de guiá-los a um dos nove céus de acordo com suas ações. O nome Iyánsan, entretanto, é um título dado a Oyá, por Xangô, em referencia a sua função junto a humanidade no entardecer da vida faz (ou `ọ̀san`). Iyásan (que para a nossa pronúncia se reduz a Iansã) quer dizer A mãe (Iyá) do entardecer(ọ̀san). Ainda há versões que traduzem como a A mãe do céu rosado. Eu, particularmente, prefeiro aquela primeira, em negrito. Era como Ele a chamava pois dizia que ela era radiante como o entardecer. Os nossos Irmãos Africanos da tradição Orixá e os de fora também, costumam saudá-la antes das tempestades pedindo a ela que apazigue Xangô, o Orixá dos trovões, raios e tempestades pedindo clemência, pronuciando assim:Ẽpa he, Ọya, Iyá mẹsan ọ̀run!.

Traduzindo, enquanto analisamos a etmologia, teremos os seguontes componentes: Ẽpa he = Saudação a sua ligação com Xangô, um dos grandes líderes da fraternidade Ògbóni  na segunda parte, a expressão Iyá = Mãe; mẹsan = nove; ọ̀run = céus.

Então,

Ẽpa he, Ọya, Iyá mẹsan ọ̀run!

Referencia:


2.      Imagem: Tempestade

Sunday, December 21, 2014

“Babalóriṣa”


 

 
Lembro como tivesse acontecido ontem:

Era década de 1970, e passava eu pela praça da Sé, na nossa Salvador da Bahia, quando escutei de uma loja de discos, uma batida de atabaques ritmada pelo som do agogô. Sentia uma atração irresistível pelo candomblé, enquanto ouvia de meus pais (mais precisamente do meu pai) recomendações desabonadoras sobre “gente de candomblé”. Tudo isso para mais tarde constatar que todos da família do meu pai e parte da família da minha mãe era “gente de candomblé”).

Voltando a praça da Sé, me vem nos ouvidos a voz marcante, gutural, na qual o solista entoava aqueles versos maravilhosos em língua Ioruba. O `Pai de Santo` cantava para Exú:

 

“ – Ibarabô Exú bara Ibá Koxé....”

 

 Era a voz de Luís da Muriçoca, gravada em um disco antológico.

Nos dicionários, ele é Luís Alves de Assis, ou o Babalorixá Luís da Muriçoca, nascido em 1920, e esteve à frente do terreiro Ilê Axé Ibá Ogum por várias décadas. O terreiro foi fundado em 1890, e localiza-se em Salvador, na Avenida Vasco da Gama, no Vale da Muriçoca...e por aí vai; Porém, para minha modesta pessoa e para alguns que tiveram a HONRA de ter compartilhado o mesmo ar com aquele ícone da nossa cultura, ele era Oguntoshi.

Mas o motivo maior para essa intervenção é a relação entre uma faixa do disco Candomblé da Bahia, de Luís da Muriçoca, de título Babalorixá e o despertar do meu interesse por uma maior compreensão da língua Ioruba. Nessa faixa, Oguntoshi declama uns versos segundo um fraseado que se escuta mais ou menos assim:

 

Li lolô orukó ré baba, ati emum ati emi baba....”

 

Nos anos 1980, comecei a interagir com estudantes nigerianos do programa de intercâmbio entre as Universidades Ilê Ifé e Universidade Federal da Bahia. Comecei a checar o fraseado, e não encontrava respaldo que desse suporte ao fraseado entre aqueles jovens, ou seja, eles não entendiam o fraseado. De início julguei que se tratasse de um desfasamento natural entre gerações e suas respectivas formas características de comunicação (as formas da comunicação utilizadas, naturalmente são diferentes) entre os que vieram como escravos no século 19 e as formas de comunicação em uso nos anos 1970/80). Em verdade, na minha ótica, a razão desse desfasamento entre comunicações dentro da mesma Língua Ioruba, se deve a esse fato e alguns outros acessórios, dentre os quais destaco o seguinte: A língua Ioruba é uma língua tonal, ou seja, mudando o tom ou a acentuação, muda o significado da palavra. Daí, o fato da transmissão do conhecimento da Língua Ioruba entre as nossas gerações, não ter acontecido de forma organizada, a língua Ioruba que nós praticamos no Candomblé, perdeu uma das suas características fundamentais: A tonalidade como forma de diferenciação entre palavras de mesma grafia. Como estudioso dessa forma de comunicação ainda em uso em alguns países do oeste da África, taus como a Nigéria, o Benin, Togo, etc., hoje reescrevi essa saudação assim:

 

Li Lọ́rọ̀ Orúkọ rẹ̀ Baba

 

A ti E̟ mọ, a ti E̟ mi Baba Ọlọ́run kọ rẹ̀

 

Ògún Iyè pàtaki orí awa meji

 

O so ẹni tí s̟aláyìn dodo adé gún rú n rin

 

Ohun Iyè ati sále

 

Ọbaolúaye a s̟e gb lgbe

 

Àkọ́rọ̀-ojo a fun ran súrù

 

A sun a rí gẹ́rẹjẹ ibi

 

Şàngó mọ gbọnra ti s̟e ere jẹ́jẹ́ ere

 

Ǫmǫ nlǫ san gbndu ni Àşa

 

Kẹ̀rẹ kẹ̀rẹ

 

Agora vejamos uma análise de cada uma das formas(frases) dadas acima, com as respectivas traduções:

 

Li Lọ́rọ̀ Orúkọ rẹ̀ Baba

 

 (Apelamos desesperadamente ao Vosso nome Pai)

 

 A ti E̟ mọ, a ti E̟ mi Baba Ọlọ́run kọ rẹ̀  

 

(Nós o conhecemos, Pai como Deus)

 

Ògún Iyè pàtaki orí awa meji

                         

(Que a guerra seja na medida dos dois caminhos)

 

O so ẹni tí s̟aláyìn dodo adé gún rú n rin

 

Ele vê os que não louvam com justiça ao longo da caminhada

 

Ohun Iyè ati sále

 

(Na busca pela sobrevivencia)

 

Ọbaolúaye a s̟e gb lgbe  

 

(O Senhor da Vida nos iguala)

 

Àkọ́rọ̀-ojo a fun ran súrù

 

(As primeiras chuvas trazem a esperança da espera)

 

A sun a rí gẹ́rẹjẹ ibi

 

(Nós oferecemos a vida)

 

Şàngó mọ gbọnra ti s̟e ere jẹ́jẹ́ ere

 

(Xangô faz estremecer todo o corpo e o torna infantil)

 

Ǫmǫ nlǫ san gbndu ni aşa

 

(As crianças são pequenas e robustas por costume)

 

Kẹ̀r kẹ̀r

 

(Gradualmente)

 

Pois é, meu querido leitor, minha querida leitora. Assim é a Língua Ioruba, uma ferramenta cultural rica e valorizada por antropólogos de várias nacionalidades ao redor do mundo. O professo Kayode J. Fakinlede, autor do livro “Beginner´s Yoruba” (Ioruba para Iniciantes) escreve no primeiro diálogo do seu livro:

 

Edè Yorùbá dùn púpọ̀ láti kọ́. Bótilẹ̀jẹ́pé ó s̟òro díẹ̀ láti mọ

 
Ou seja (em Português) “A língua Ioruba é muito interessante, porém um pouco difícil para aprender”.

 

 

 

 

 

 

Saturday, September 20, 2014

Embaixada da Nigéria e FIEB lançam em Salvador o I Seminário sobre Oportunidades de Negócios e Investimentos na Nigéria


O Centro de Negócios Nigéria-Brasil (CNNB), com o apoio da Federação das Indústrias do Estado da Bahia – FIEB (através do seu Centro Internacional de Negócios – CIN) realizou no dia 17 de setembro próximo passado, o I SEMINÁRIO OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS E INVESTIMENTOS NA NIGÉRIA. O evento contou com a presença da Primeira Secretária da Embaixada da Nigéria no Brasil, Sra. Rosemary E. Oseyi-Okosodo (que na oportunidade representou o Embaixador da República Federal da Nigéria no Brasil, o Sr. Adamu Emozozo) enquanto a FIEB foi representada pelos o Srs. Carlos Henrique Gantois, Vice-Presidente (que na oportunidade representou o Sr. Carlos Gilberto Cavalcante Farias, Presidente daquela entidade), e Reginaldo Rossi,Vice-Presidente da Confederação das Indústrias do Estado da Bahia (CIEB). Na audiência, empresários, representantes de grandes empresas de setores da indústria interessados.
O evento tem como objetivo abordar as oportunidades de negócios e investimentos na Nigéria para auxiliar os empresários que desejam começar a exportar ou aumentar sua presença naquele mercado visto que os governos do Brasil e da Nigéria assinaram recentemente acordos bilaterais, em áreas como agricultura e segurança alimentar, petróleo, energia, bicombustíveis, mineração, cultura, educação, comércio e aviação.
A visita da presidenta Dilma Rousseff a Nigéria em fevereiro de 2013, estabeleceu um mecanismo de diálogo estratégico entre os dois países. Durante a sua visita as autoridades brasileiras afirmaram que é intenção do governo impulsionar, não apenas o comércio, mas também estabelecer parcerias na área de ciência e tecnologia.
Após as boas vindas aos participantes, foi proferida a palavra de abertura do evento, pelo Sr. Carlos Gantois em nome do Presidente da FIEB. Em seguida, foi a vez da Sra. Rosemary E. Oseyi-Okosodo ler a mensagem oficial do Embaixador da Nigéria no Brasil, o Sr. Adamu Emozozo dirigida aos potenciais investidores baianos.
Por último, o Sr. Michael Olúsegún Akinruli, CEO do Centro de Negócios Nigéria-Brasil (CNNB), falou oficialmente em nome da República Federal da Nigéria, convidando a comunidade empresarial baiana para integrarem a Missão Empresarial que visitará a Nigéria entre os dias 1º e 7 de dezembro desse ano de 2014. O CNNB tem um escritório em Belo Horizonte,MG.
  
Crédito Imagem/Foto: Marcelo Gandra/Coperphoto/Sistema FIEB

 contatos CNNNB olu@nigeriabrazil.org 

Monday, September 8, 2014

Ẹ mo ri O!

O texto que segue é dedicado ao Professor Dr. e Acadêmico Ogán Ordep Serra e a minha querida Ekedji Cinha e ao meu tio Arnaldo Silva, da Escola de Samba Filhos do Tororó.
Ekedji,Ago mo juba Egbon mi Ki Ọlọ́run Fe̟ O
“ emoriô deve ser
uma palavra nagô
uma palavra de amor
um paladar... emoriô deve ser

alguma coisa de lá
o Sol, a Lua, o céu
pra Oxalá...” Compositor: João Donato (música) Gilberto Gil (letra)

Acho que todos na Bahia já ouviram essa música gravada.

Que delícia o som dessa música, não é?!  

Os dois motivos principais para esse artigo foram:
1) o programa “Saraus” da Globo News, no qual o Jornalista Chico Pinheiro se delicia e nos delicia com boa música, através de seus convidados maravilhosos e
2) A posse do (meu amigo e irmão em Xangô) Antropólogo Cachoeirano Ordep Serra, na cadeira 27 da Academia de Letras da Bahia (ALB) nessa quinta-feira próxima passada dia 4 de setembro, para ocupar a vaga deixada por James Amado. Vale lembrar que Serra também é escritor, premiado duas vezes com um livro de contos, pela própria ALB, além de ser especialista em cultura grega e maior defensor da nossa (dele também) Cultura Jeje-Bantu-Nago- Ameríndia.
Quando assisti ao programa da série “Saraus” no qual o convidado era ninguém menos que o João Donato, eu, finalmente atentei para a autoria da música “Emorio”, vez que eu só enxergava o nome de Gilberto Gil associado a esta delicia sonora. Em especial quero destacar o batuque bem nosso que o Robertinho Silva fez na bateria juntando tambores e agogô naquela oportunidade... que maravilha!. Transportei-me a oportunidade que tive de dançar Ijexá no Aconchego da Zuzú com a própria Mãe Zuzú, já com mais de 100 anos de idade, há alguns anos.
Mas a história não começou aí. Eu era criança no bairro do Tororó, sobrinho de Arnaldo Silva, filho de Conceição, irmã mais velha dele (hoje no Ọrun), e costumava aguardar, como todos no bairro, com ansiedade, a visita dos Filhos de Gandhi, que acontecia, na terça-feira de Carnaval, constituindo assim um clímax do festejo, ao lado da saída da Escola de Samba Filhos do Tororó.
É preciso colocar o processo de assimilação da cultura Iorubá-Nagô no recorte delineado pela cultura eurocêntrica imposta ao povo brasileiro e baiano pelas elites de poder desde a epopéia do “descobrimento”, passando pelas “Entradas e Bandeiras” e pela “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freire. Esse recorte cruel foi muito bem assimilado pela massa popular da Bahia dos idos de 30,40 e 50, época florescente do projeto eugenista da sociedade brasileira, que via no “branqueamento” do povo a “solução” para “os problemas” do Brasil. Com todo o respeito que merece um Gilberto Gil e um João Donato, peço licença para depor com conhecimento de causa sobre os fatores que nos distanciam da Cultura Iorubá-Nagô, legado tão rico que traz estudiosos de todas as partes do mundo interessados nos sues detalhes que só permaneceram aqui por terem sido preservados com obstinação pelos Templos Religiosos de Matriz Africana.
Na minha casa, (preciso enfatizar que minha casa era uma casa de gente preta?) o que era defendido de forma tácita e implícita, e explicita (quando tal face da educação se tornava de exposição necessária) era a adoção do modelo etnocêntrico europeizante. A esperança era de que os filhos tivessem o “bom senso” de “limpar a família”. Minha mãe foi criada por uma família de mulatos de pele clara que ascenderam à classe média. Daí, o leitor pode fazer a sua leitura.  
Gente, o processo de discussão sobre a diversidade étnico-racial que vem ocorrendo em todo o mundo, tem se dado também no Brasil em vários setores da sociedade. Entretanto, não há uma discussão efetiva em torno do cerne da verdade, e sem a verdade toda a discussão se torna cosmética e será substituída pela próxima moda. O resgate histórico da situação do afro-religioso, desde os diversos momentos incluindo o momento no qual foi interditado por força de  lei, a qual só cessou na década de 70 com o Governador Roberto Santos, precisa ser discutido de forma sincera e corajosa para garantir,de vez, ao povo, o direito ao livre exercício de sua religiosidade, ao exercício escolar da História do Negro , e o acesso das comunidades vulneráveis (muito mais numerosas,do que reflete a vã estatística do Estado) à escolaridade e a outros bens e serviços que refletem no nível de desequilíbrio e da violência.
Quanto à “palavra Emoriô”, não é uma palavra e sim uma frase, que em Iorubá se escreve como mo ri O” e significa “Eu Te vejo”. No caso o “O” maiúsculo é que enfatiza referencia a um Ser Superior, digno de Reverencia, daí a associação a Oxalá, ou em Iorubá Òris̟a ni ńlá”, que significa “Guardião que está no alto”, ou “Orixalá”, ou como pronunciamos na nossa Bahia, OXALÁ.

Referencias:

1.      Emoriô http://www.vagalume.com.br/joao-donato/emorio.html (acessado em 08/09/14);
2.      FERNADES, Gláucio da Gama. SILVA, Arlete Oliveira da Conceição Anchieta da. LIBERDADE RELIGIOSA NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS: UM ESTUDO NA CIDADE DE MANAUS – AMAZONAS. http://www.xiconlab.eventos.dype.com.br/resources/anais/3/1308348266_ARQUIVO_LiberdadeReligiosanosCultosAfro-brasileiros-CONLAB.pdf  acessado em 08/09/14;
3.      O antropólogo Ordep Serra é eleito para a Academia de Letras da Bahia http://www.metro1.com.br/antropologo-ordep-serra-e-eleito-para-a-academia-de-letras-da-bahia-6-47331,noticia.html (acessado em 08/09/14);


Sunday, July 27, 2014

Alaafin Ilú-ọba Ọ̀yọ́ ti dé

A tradução do título acima para o Português é:

O Alaafin do Império de Oyó chegou!


A palavra Iorubá “Ọba” traduzida para o Português significa “Rei”. Porém nas terras Ọ̀yọ́ (que nós vamos transliterar para o Prtuguês como “Oyó), a palavra usada é Alaafin (que teria como origem etimológica a palavra “Ofín” que significa “Aquele que dita as Leis”, ou “Senhor da Lei”, ou “Legislador”).
Amanhã, dia 28 de Julho, acontecerá a abertura do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, com resultado da iniciativa conjunta de cinco Templos da Tradição Iorubá-Nagô que já foram devidamente  tombados como patrimônio nacional do Brasil. São eles:  Ilé Àse Iyá Nassó Okà (Casa Branca do Engenho Velho), Ilé Àse Opo Àfonjá, Ilé Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Terreiro Alaketu) e Ilé Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê). A referida iniciativa conta com o apoio do Ministério da Cultura, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN e do Governo do Estado da Bahia, e é parte do esforço para o incentivo e promoção da interlocução acerca da preservação e salvaguarda dos nossos bens culturais.
Este seminário contará, sobretudo, com a valiosíssima participação de representantes vindos da Nigéria, um dos principais berços das religiões tradicionais africanas preservadas no Brasil. Integrarão o grupo: o Ministro da Cultura do governo nigeriano, líderes tradicionais representantes da diversidade cultural da cidade de Oyó e, finalmente, Sua Majestade Imperial, o Alaafin de Oyó, Oba Ladeyemi III, acompanhado de sua comitiva tradicional. Este último é tido como pai e guardião do povo ioruba, herdeiro da coroa de Xangô.
O império de Oyó era um império Iorubá localizado em uma região geográfica que engloba o que é hoje as partes ocidental e norte da Nigéria. Foi fundado no século 14, e cresceu para se tornar um dos maiores estados do Oeste Africano encontradas pelos exploradores pré-coloniais. Ele floresceu a custa da capacidade de organização dos Iorubás. A sua riqueza obtida através do comércio e das conquistas da sua poderosa cavalaria. O império de Oyó foi o estado politicamente mais importante na região a partir de meados da década do século 17 até o final do século 18, dominando não só a maioria dos outros reinos das terras Iorubás, mas anexando também partes de estados africanos vizinhos, especialmente as terras a oeste, pertencentes ao Reino Fon do Daomé,localizado onde está hoje a moderna República do Benin.
O Obá (Rei em Iorubá) Lamidi Olayiwola Adeyemi III (nascido em 15 de outubro, 1938) é o Alaafin, ou governante tradicional, do estado de Oyo. A capital de Oyó é Ọ̀yọ́-ilẹ̀. A língua oficial é o Iorubá, e a religião é a Religião Tradicional Iorubá, ou seja, é o culto aos Orixás. Dentre os Monarcas mais importantes da história de Oyó, estão:
1.     Oranyan ( Fundador mítico do Imperio de Oyó)
2.     Ajaka
3.     Xangô
4.     Ajaka
5.     Aganju
Serão realizadas mesas-redondas, palestras, apresentações culturais e visitas às cinco casas tombadas.

28 de julho (segunda-feira) 
Fórum Ruy Barbosa (Palácio da Justiça)

14:30 a 15:50 | Solenidade de Abertura.

16:00 a 16:40 | Palestra magna de Sua Majestade Imperial, o Alaafin de Oyo.

16:40 a 17:00 | Apresentação Cultural. 

17:00 a 18:30 | Mesa-Redonda 1: Nos caminhos de Xangô: o patrimônio cultural compartilhado entre Oyo e a Bahia.
1) A importância do Império de Oyo e a riqueza cultural preservada na cidade de Xangô;
2) A centralidade do culto de Xangô nos terreiros de Candomblé Nagô da Bahia e suas ligações com império de Oyo. 

18:30 a 20:00 | Mesa-Redonda 2: Problemáticas e Instrumentos da Preservação e Salvaguarda do Patrimônio Compartilhado no Brasil e na Nigéria.
1) Políticas públicas para a preservação e valorização do patrimônio cultural dos povos e comunidades de matriz africana no Brasil (tombamento, mapeamentos e planos de gestão integrada);
2) Proteção e gestão do patrimônio cultural da cidade de Oyo: possíveis mecanismos de proteção. 

29 de julho (terça-feira)
09:00 a 12:00 | Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho
Visita da comitiva de Oyo ao Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.
14:00 a 17:00 | Casa de Oxumarê
Visita da comitiva de Oyo à Casa de Oxumarê encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

30 de julho (quarta-feira)
09:00 a 12:00 | Ilê Àse Opo Afonjá
Visita da comitiva de Oyo ao Terreiro Ilé Àse Opo Àfonjá para encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.
14:00 a 17:00 | Terreiro Alaketu
Visita da comitiva de Oyo ao Terreiro Alaketu para encontro sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições.

31 de julho (quinta-feira)
09:00 a 12:00 | Terreiro do Gantois
Visita da comitiva de Oyo ao Terreiro do Gantois para encontros sobre ações preservacionistas, origens, ancestralidade e manutenção das tradições
31 de julho (quinta-feira)
09:00 a 12:00 | Terreiro do Gantois
31 de julho (quinta-feira)
13:00 a | Saída para a visita a Pedra de Xangô, na Fazenda Grande II